Ir para o conteúdo principal

Conservação “às cegas”: a necessidade urgente de práticas de conservação baseadas em evidências

Estamos desperdiçando recursos em esforços de conservação “às cegas”? Vamos ver como esse problema se manifestou e o que pode ser feito para resolvê-lo.

· Por Lemu · 4 min de leitura

Publicado por Dr. Stephan M. Funk, diretor científico da Lemu

Estamos desperdiçando recursos em esforços de conservação “às cegas”? A desconexão entre a ciência e a gestão prática da conservação, e a relutância de alguns gestores em aplicar a experiência de seus próprios projetos e de outros, levaram a uma alarmante falta de práticas baseadas em evidências. O resultado é uma alocação ineficaz de recursos e um avanço mais lento rumo às metas de biodiversidade. Vamos ver como esse problema se manifestou e o que pode ser feito para resolvê-lo.

Com o termo conservação “às cegas”, refiro-me à falta de esforços de conservação verificáveis e baseados em evidências, à falta de aprendizado com a experiência de outros projetos e à lacuna de implementação entre a pesquisa acadêmica em biologia da conservação e sua aplicação no planejamento e na gestão da conservação.

Falta de evidências verificáveis

Em um estudo de projetos de conservação do Reino Unido no início dos anos 2000, impressionantes 77% de 61 projetos se apoiaram apenas em evidências anedóticas, sem dados científicos. Tendências semelhantes foram observadas em outros países. Basear-se em interpretações qualitativas pode levar a decisões ineficazes, à falta de acompanhamento do progresso e à impossibilidade de replicar os resultados. 

Esse problema persiste. Por quê? 

  • A gestão baseada em evidências costuma exigir habilidades avançadas, ferramentas sofisticadas e análise de dados de alto nível, algo que falta em muitas organizações de conservação.
  • Muitas vezes não há tempo, recursos financeiros nem equipe treinada suficientes para a análise, a síntese e a publicação de dados.

Avanços dos últimos 20 anos

Nos últimos 20 anos, várias iniciativas importantes foram criadas e deslocaram o foco para a educação e o treinamento em como aplicar a evidência de conservação no planejamento de projetos. No entanto, esses esforços ainda não fizeram a aplicação prática acompanhar o nível de ênfase que a literatura lhe dá.

Para melhorar a situação, quem atua na conservação precisa garantir que a evidência seja plenamente considerada durante o planejamento do projeto e, além disso, que os dados sejam coletados de forma consistente, documentados e tornados acessíveis. As práticas de ciência aberta podem trazer soluções, mas a lacuna de implementação continua sendo um problema crítico. Por exemplo, muitas diretrizes de conservação estão desatualizadas, não têm uma metodologia adequada e não oferecem evidência suficiente para respaldar as ações recomendadas.

Dois desafios importantes no campo da conservação são os prós e os contras da publicação em acesso aberto e a alocação de recursos na biologia da conservação. A publicação em acesso aberto tornou os dados de conservação mais acessíveis, mas criou um novo problema para pesquisadores do Sul Global ou de projetos de conservação menores, que não têm como pagar para publicar seus dados. Como resultado, surgiu uma nova barreira para a publicação e o compartilhamento de dados.

A importância do monitoramento

Para maximizar o impacto de nossos recursos limitados, precisamos investir em estratégias baseadas em evidências e melhorar o monitoramento e o relato de resultados. Monitoramento é o processo de reunir informações sobre uma variável (p. ex., tamanho da população, condição do habitat, etc.) para avaliar seu estado. São necessárias atividades de monitoramento de curto e longo prazo para medir o sucesso dos projetos de conservação.

No entanto, os programas de monitoramento costumam ser criticados por projeto deficiente, metodologias pouco claras, comunicação insuficiente dos resultados e períodos curtos demais. Essas falhas podem resultar em decisões ruins, desperdício de recursos, incapacidade de detectar problemas antes que se agravem e incapacidade de aproveitar os sucessos da conservação.

Como superar a lacuna de implementação entre ciência e gestão nos esforços de conservação

A lacuna de implementação entre ciência e gestão continua sendo um desafio no mundo da conservação, onde os resultados de pesquisa têm dificuldade para chegar às estratégias práticas de conservação. Quais são as barreiras para acessar e usar dados de pesquisa e para conhecer os avanços recentes da ciência da conservação?

A lacuna de implementação se deve principalmente à falta de compreensão do valor dos dados de pesquisa, ao acesso limitado a especialistas e à literatura e às restrições de financiamento. A falta de comunicação entre pesquisadores e profissionais agrava o problema e faz, por exemplo, com que dados genéticos importantes e as preocupações associadas sejam ignorados nas decisões de política e de gestão.

Fechar essa lacuna exige melhor educação e treinamento para quem atua na conservação, melhores canais de comunicação e mais apoio para integrar os dados de pesquisa nos planos de manejo.

O acesso aos dados é outro problema importante: muitos pesquisadores não querem ou não conseguem compartilhar suas pesquisas. A preservação dos dados de pesquisa a longo prazo é essencial, e as políticas deveriam exigir o compartilhamento de dados por meio de arquivos públicos.

Apesar dos avanços na publicação em acesso aberto, a qualidade e a usabilidade dos conjuntos de dados arquivados continuam irregulares. É preciso incentivar e treinar os pesquisadores para melhorar as práticas de compartilhamento de dados e a qualidade dos dados. Além disso, é preciso ampliar a utilidade do big data na conservação, fortalecendo o controle de qualidade e a gestão dos dados.

Rumo a uma conservação baseada em evidências

Para enfrentar o problema da conservação “às cegas”, precisamos fechar a lacuna entre a ciência e a gestão prática. Podemos fazer isso com estas ações:

  1. Investir em estratégias verificáveis e baseadas em evidências.
  2. Estimular o intercâmbio de conhecimento entre a academia e quem atua na conservação. 
  3. Projetar e implementar programas de monitoramento eficazes.
  4. Dar mais prioridade à análise, à síntese e à publicação de dados, e torná-las mais acessíveis e oportunas. 

Ao enfrentar esses desafios, podemos avançar rumo a esforços de conservação mais eficazes e baseados em evidências, que gerem progresso tangível na luta para proteger a biodiversidade do nosso planeta.

Conclusão

Resolver a falta de dados disponíveis e confiáveis é vital para fortalecer os esforços de conservação. Se priorizarmos uma conservação verificável e baseada em evidências, melhorarmos o monitoramento e nos concentrarmos na análise, na síntese, na curadoria e na publicação de dados, poderemos fechar a lacuna de implementação e garantir um futuro melhor para a conservação da biodiversidade e, com ela, para as futuras gerações humanas.


Leve a evidência para a ação com o Atlas.

Atlas, a plataforma de Nature Intelligence da Lemu, transforma dados complexos de biodiversidade em informação clara e acionável, e ajuda conservacionistas, empresas e comunidades a ir além da conservação “às cegas” e a fazer cada decisão contar para a natureza.

Saiba mais sobre o Lemu Atlas

Sobre o autor

Lemu Lemu
Atualizado em 2 de nov de 2026